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“Por favor, não me deixe!” — Como Alguém Pode Ser Humano Após o Genocídio na Palestina?
“Por favor, não me deixe!” — Como Alguém Pode Ser Humano Após o Genocídio na Palestina?
Cláudio Carvalhaes - Seminário Teológico União em Nova Iorque
Acabei de sair de uma sessão do filme — um filme de partir o coração — The Voice of Hind Rajab [A Voz de Hind Rajab], da cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, bendita seja sua arte! A obra é o que chamamos de docuficção, gênero em que a diretora parte de fatos reais e os ficcionaliza na narrativa.
A história real ocorreu em 29 de janeiro de 2024, na Cisjordânia, e tem como base a gravação da ligação telefônica de Hind Rajab Hamada, uma menininha de apenas 5 anos, aos socorristas do Crescente Vermelho em Ramallah. Hind Rajab estava no carro com seu tio, sua tia e três primos quando o veículo foi impiedosamente bombardeado pelo exército israelense. Layan, uma das primas, ainda com vida, ligou para os socorristas pedindo ajuda. Pouco tempo depois, Layan morre, e Hind pega o telefone. Com sua voz infantil, ela diz: “Estou com medo, eles estão atirando… Por favor, venham me buscar… Por favor, não me deixem. Estou sozinha. Os tanques estão aqui… Estão atirando em mim… Por favor, não me deixem. Tenho medo do escuro.”
O filme, então, ficcionaliza o processo pelo qual os funcionários do Crescente Vermelho mantêm contato com Hind enquanto precisam navegar pela perversa burocracia imposta por Israel para o envio de uma ambulância. Eles têm uma ambulância disponível e estão a apenas 8 minutos de distância de Hind, mas todo o processo leva 3 horas para se concretizar antes da ambulância sair. Durante esse tempo, a ligação cai e retorna repetidamente. Após esse longo período, eles finalmente recebem permissão para enviar uma ambulância com dois paramédicos. No caminho, a ambulância é alvo de uma série de disparos que matam os paramédicos. Hind diz que ouviu os tiros. E, então, ouve-se uma nova pesada rajada de disparos. Depois, o silêncio. Hind foi morta.
Embora o filme seja feito sob a perspectiva dos trabalhadores humanitários do Crescente Vermelho, é a voz real de Hind que sustenta, organiza e conduz sua narrativa.
Israel afirmou inicialmente que não havia policiais naquele local; depois, declarou que as 335 marcas de balas nos carros tinham sido o resultado de um tiroteio entre as Forças de Defesa de Israel (IDF) e militantes palestinos. Uma investigação adequada por parte das Forças de Defesa de Israel jamais ocorreu de fato. No entanto, um documentário da Fundação Hind Rajab e da Al Jazeera chegou a outras conclusões. Eles afirmam que: “...uma investigação subsequente de imagens de satélite e áudios daquele dia, conduzida pelo grupo de pesquisa multidisciplinar Forensic Architecture, sediado na Goldsmiths, Universidade de Londres, identificou apenas a presença de diversos tanques israelenses Merkava nas proximidades do carro da família Rajab, e nenhuma evidência de qualquer troca de tiros”.1 Eles possuem os nomes dos soldados, do batalhão e das brigadas onde estavam lotados no exército israelense.
A história de Hind é brutalmente violenta, cruel, estarrecedora, ultrajante, avassaladora. A atriz Saja Kilani, que atuou no filme, sintetizou com precisão: “Este filme não é uma opinião nem uma fantasia. Ele se baseia na verdade. A história de Hind carrega o peso de um povo inteiro. Sua voz é uma entre as dezenas de milhares de crianças que foram mortas em Gaza somente nos últimos dois anos. É a voz de toda filha e todo filho com o direito de viver, de sonhar, de existir com dignidade. No entanto, tudo isso foi roubado diante dos nossos olhos, sem que percebêssemos”.2 E, ainda assim, creio que vai muito além disso. A voz de Hind é a voz da maioria das pessoas no mundo hoje; sua voz carrega o peso do mundo inteiro.
Não faz muito tempo, Israel admitiu os números de mortos: há pelo menos 71.500 pessoas mortas, sem incluir os corpos que permanecem soterrados sob os escombros. Entre eles, até julho de 2025, mais de 18.500 eram crianças. Entretanto o genocídio em Gaza continua e não se ouve quase ninguém no mundo inteiro falar nada.
Não sei o que resta de mim após assistir a esse filme. Não consigo "desver" o que vi; isso ficará em mim pelo resto da minha vida. Tenho duas filhas e um filhos e sinto que Hind também era minha filha. Eu também precisava cuidar dela, pois ela também era minha filha. Ah, preciosa Hind, assim como você, eu também sempre tive medo do escuro. Tanto medo que ensinei ao meu filho Ike uma oração que dizia: “Eu não tenho medo do escuro” para que ele não tivesse medo do escuro. Eu tinha 49 anos quando ensinei a ele essa oração, mas depois percebi que aquela prece não era para ele, mas para o meu próprio menino de 5 anos, o garotinho que cresceu com tanto medo da escuridão. Além disso, sempre tive medo de que as pessoas me abandonassem e, em tantos momentos da minha vida eu repeti em silêncio esta frase: “por favor, não me deixe”. Ah, como eu gostaria que você pudesse ter sentido as mãos calorosas dos paramédicos carregando seu corpo e dizendo Mashallah. Sinto muito que você não tenha podido viver mais Hind, eu sinto muito.
Quando comecei este texto, eu tinha a seguinte pergunta para o título: “Como se pode ser cristão após o genocídio na Palestina?”. E talvez essa pergunta devesse ecoar por muito tempo para todos os cristãos, para que pudessem levá-la ao âmago de sua fé e questionar: O que fizemos aos palestinos? Por que escolheram desviar o olhar para Israel? Que espírito foi esse que os fez fechar os olhos, silenciar suas orações pela Palestina e esquecer o amor a eles? Que inferno de teologia da morte é essa que apoia um ataque genocida e deixa sacrificar uma população inteira?
O genócidio tornado lícito de Gaza mostrou que em muitas vertentes do cristianismo, a fé no Jesus Palestino de Nazaré nunca existiu de verdade, mas que foi programa político de tomada de poder. Esses cristianismos são o refugo e incubadora das piores manifestações da humanidade. Não há nada a ser salvo nessas formas de cristianismo. É preciso combatê-las até que elas apodreçam. Elas são uma religião de matar e fazer morrer.
Tudo isso me lembra o que o professor James Cone me disse certa vez em uma reunião de faculdade no Union Theological Seminary. Eu estava tão frustrado com o cristianismo que não conseguia permanecer nele por muito tempo, então me queixei com ele sobre os caminhos da igreja. Ele me disse: “ah, Cláudio, a verdadeira igreja de Jesus Cristo é muito, muito pequena; é muito difícil encontrá-la”. Concordei plenamente com o meu professor. E eu acrescentaria: a igreja de Jesus Cristo só pode acontecer onde é impossível que ela exista. Talvez Gaza e toda a Palestina sejam um desses poucos lugares onde a igreja pudesse realmente existir, porque é impossível.
Contudo, manter essa questão apenas sob um horizonte cristão seria reduzir nossa condição como humanos diante dessa atrocidade. Depois de Gaza, a verdadeira pergunta que devemos nos fazer em qualquer lugar é: como podemos continuar a nos chamarmos seres humanos após a Palestina? A Palestina nos mostra nossas duas faces. Por um lado, a graciosidade da humanidade, que vemos na presença dos palestinos — na preciosidade da sua vida, no sustento diário, na luta constante, na resiliência e na força da condição humana. Por outro lado, vemos também na Palestina a face horrorosa da humanidade naquilo que nações inteiras estão fazendo com seu silêncio e suas palavras vazias que não levam a lugar algum. Sim, somos todos feitos desses dois materiais: as partes maravilhosas da vida e essas formas polivalentes de mal e enfermidade. No fim, creio que estejamos destruídos para além do tempo de cura. Tornamo-nos um manicômio a céu aberto! Bifo diz que o mundo está passando por uma psicose, uma “geopsicose”,3 e eu concordo.
Dorrit Harazim, jornalista brasileira, diz em um texto lindo que a voz de Hind “pode ser compreendida como o cordão umbilical que liga Gaza ao mundo dos vivos. Mas esse mundo falhou.” Ao silenciarmos a voz de Hind, aniquilamos qualquer forma de futuro, assassinamos a nós mesmos. Não passamos de cadáveres ambulantes, esperando por um julgamento final que nunca virá.
A história de Hind me lembra outra história contada por Omar El Akkad que despedaçou meu coração. Diz assim:
Enquanto os homens carregam a menina para fora do que um dia foi sua casa, ela pergunta se eles vão levá-la ao cemitério. Um dos homens diz: “Mashallah, mashallah”. Em tradução literal, a palavra significa: o que Deus quiser. Uma aproximação mais fiel de seu significado — ou de um dos significados — seria algo como: o que aconteceu é o que Deus quis. Mas, ao tentarmos traduzir essa palavra para a nossa língua, ela se torna rígida e monofônica, enquanto “Mashallah” é orquestral. Para qualquer ouvido que cresceu com esse idioma, é claro que o que o homem quer dizer ao pronunciar essa palavra é algo completamente diferente. Algo instantaneamente reconhecível por gerações que a ouviram sair dos lábios de avós radiantes ao final de recitais de piano, cerimônias de formatura e ao verem um recém-nascido pela primeira vez. Usada assim, a palavra encontra seu propósito principal: uma expressão de alegria. Olhe só que coisa maravilhosa Deus fez... A menina na maca acredita que chegou ao fim. Um homem diz a ela: “Inti zay el amar”. Você é como a lua. Mais uma vez, a tradução falha. Não há equivalente em nosso idioma para a linhagem dessa frase — uma linhagem que atravessa gerações de filmes antigos, canções de amor e reuniões familiares. Ouça a alegria sutil, a súplica — súplica crua — que embala essas palavras quando o homem diz à menina que sobreviveu, enquanto tantos outros morreram, que ela é linda além dos limites deste mundo. Algo terminou aqui. Mas algo novo começa. Os mortos cavam poços nos vivos.
Mashallah!
Minha preciosa Hind, sua história fez meu coração desabar e cair no chão em pedaços que não serão mais colados. E com meu coração partido e desfigurado, ainda quero dizer a você:
“Inti zay el amar”. Você é como a lua.
Sinto muitíssimo. Ah, não nos perdoe.
Todo meu amor para você!
Viva a Palestina!
