E garanta 10% na primeira compra
HERMENÊUTICAS
A palavra hermenêutica pode soar estranha para a maioria das pessoas que não tem muita familiaridade com o estudo e interpretação de textos, sobretudo da Bíblia, embora, também, em âmbito jurídico seja comum o emprego de conceitos hermenêuticos para interpretação de textos legais. Todavia, conquanto os leitores dos textos bíblicos possam não fazer ideia do que seja a hermenêutica, eles a estão praticando a todo momento em que interpretam e aplicam o conteúdo desses textos ao contexto de sua própria realidade. Dessa forma, é razoável que se diga que o estudo da hermenêutica não consiste no aprendizado de uma técnica acadêmica totalmente desconectada do cotidiano das pessoas comuns, mas da aquisição de uma consciência acerca das diferentes formas e/ou perspectivas que se interpretam os textos da Bíblia.
O estudo da disciplina, aqui denominada hermenêuticas (no plural), por conseguinte, está preocupada em estudar a hermenêutica a partir de duas perspectivas fundamentais. A primeira, é em relação ao que é, de fato, a hermenêutica, isto é, antes de mais nada, é necessário que se tenha uma compreensão a respeito de como funcionam as engrenagens de um mecanismo hermenêutico, levando-se em conta os processos de interpretação e aplicação dos textos. Em segundo lugar, com base no entendimento da primeira perspectiva, visa-se ter capacidade de se constatar a pluralidade de processos hermenêuticos, ou seja, mesmo seguindo o mesmo caminho procedimental de interpretação e aplicação, a depender de premissas variáveis, podem coexistir diversas escolas hermenêuticas.
A variabilidade hermenêutica, portanto, decorre da pluralidade de pressupostos a respeito da constituição dos textos e sua relação com os leitores ao longo dos tempos. Acerca da constituição dos textos, pode-se dar destaque a dois aspectos importantes: (1) o que se pensa sobre o processo de composição desses textos, isto é, revelação e inspiração; (2) o que se pensa a respeito do que um texto, de fato, é, ou seja, um código de transmissão de conteúdo por meio de palavras-chave, ou um mecanismo de construção de sentido. Decorrente daquilo que se concebe a respeito dessas possibilidades de pressuposição, surge, ainda, outro elo da corrente de interpretação e aplicação dos textos bíblicos, que pode configurar um sistema hermenêutico plural: trata-se da participação do leitor e de seu contexto de leitura.
Assim, a depender da importância que se dá à resposta do leitor, configurada com as pressuposições acerca da composição e da constituição dos textos bíblicos, surgem diferentes sistemas hermenêuticos. Talvez seja difícil nomear todas as hermenêuticas intermediárias (pois suas configurações podem possuir elementos de mais de uma perspectiva), mas é possível falar a respeito de alguns eixos principais. De um modo geral, escolas hermenêuticas que pressupõem um processo de revelação e inspiração da Bíblia mais próximo da ideia de um ditado de Deus, palavra por palavra, compreendendo que o texto é uma espécie de código a ser decifrado e que as palavras são como se fossem pílulas conceituais de conteúdo teológico, tendem a desqualificar a importância do leitor no processo hermenêutico. A contrapartida dessa perspectiva é inversamente proporcional.
No âmbito da hermenêutica fundamentalista, que, conforme descrito acima, é caracterizada pela minimização da resposta do leitor e pela supervalorização do texto como expressão máxima da intenção do autor, a interpretação e aplicação dos textos bíblicos consiste na ideia de transferência de um combo de informações/conhecimentos do cérebro do autor para o cérebro do leitor. Nesse processo, o leitor é apenas um receptáculo passivo de um conteúdo rígido e estático. O texto, por sua vez, não passa de uma ferramenta de transmissão desse conteúdo. O texto não possui elasticidade. O texto é pobre em possibilidades. O texto é apenas um código a ser decifrado. A hermenêutica, nesse caso, é apenas a decifração desse código, com vistas à transmissão do referido combo de informações.
Em contrapartida, entretanto, existe a compreensão de que o texto seja mais do que um mero código. Pode ser que além da expressão do pensamento do autor, o texto seja, também, vivo. Nesse caso, a hermenêutica está menos preocupada com a intenção do autor (pois pode ser que esta esteja inacessível ao leitor), mas com a intenção do texto (pois essa interage diretamente com o leitor e é tudo o que ele possui de concreto em mãos). Como expressão da relação do autor com a revelação, o texto emancipa-se do autor para interagir com o leitor, que, agora, é o seu proprietário. A partir dessa relação surgem possiblidades de configuração hermenêutica constantemente renováveis.
A disciplina de hermenêuticas do LabTEM, portanto, propõe-se a capacitar seus estudantes a distinguir e avaliar a pluralidade hermenêutica constituinte do pensamento teológico contemporâneo. Para isso, há de se percorrer, ao longo da história da interpretação bíblica, o surgimento e estabelecimento dos pressupostos basilares dos diversos modos hermenêuticos de estudo da Bíblia. Assim, o estudante será capaz de identificar a lógica ao redor da qual orbitam as diferentes perspectivas hermenêuticas que se apresentam como método de interpretação e aplicação dos textos bíblicos, e estará apto a participar, com competência, das discussões acerca do estudo da Bíblia na atualidade.
Petterson Brey




