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A vida é profunda! Reflexões a partir do filme A menina que roubava livros
A paz na Terra, amor
O pé na terra
A paz na Terra, amor
O sal da Terra!
(“Sal da Terra”, de Beto Guedes)
Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro,
tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama,
se há alguma virtude, e se há algum louvor, seja esse o seu pensamento.
(Filipenses 4.8)
Compreender e vivenciar o amor, desfrutar do encanto das pessoas e de tudo mais que está ao nosso redor, incluindo as contradições e desencontros, perceber a presença de Deus no mundo, a fé e as demais dimensões do belíssimo, profundo e desafiador encontro entre o divino e o humano. Esta é uma aventura, repleta de esperas e paradas, que se faz no diálogo e em interpelação constante da realidade da vida. Trata-se de uma busca, de uma percepção espiritual, de um mergulho nas águas que se movem, removem e mostram aquilo que há de melhor na existência. O psicanalista Christian Dunker, na obra A arte de amar: uma anatomia de afetos, emoções e sentimentos (Record, 2024, p. 16), nos mostra que
O amor é esse 'grau zero' dos afetos, que mede todos os outros, mas não pode ser medido por nenhum deles. Por isso também ele se infiltra em todas as metáforas, todos os discursos e todas as narrativas, nas quais pressentimos certa insuficiência da linguagem. Podemos chamar esse ponto de 'indizível', de 'impronunciável' ou de 'além do que conseguimos dizer'.
Daí é que as palavras, sinais e atitudes que realçam a dimensão da gratuidade e da sensibilidade humana, por exemplo, serão sempre canais de esperança; e a esperança alivia o sofrimento e redimensiona o futuro. É sobre essa profundidade da vida que eu gostaria de refletir.
Para trilhar tal caminho é preciso, em boa parte das vezes, parar, aguardar, esperar. Porém, estas não são atitudes fáceis. Se há um verso bíblico intrigante na tradição cristã e, em certo sentido, desconcertante, é a conhecida parábola do fermento. Ela conta que Jesus, como bom observador dos detalhes da vida, e com muita sensibilidade, disse que a vontade divina “é semelhante ao fermento, que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo ficasse levedado” (Evangelho de Mateus 13.33). Essa sabedoria da mulher de deixar fluir e de aguardar, eu sempre desejei e tentei alcançá-la. Claro que, em todas as vezes, isso ocorreu com os ruídos e as imperfeições próprias das impaciências que as militâncias da vida nos impõem. E aí estão as lidas pastorais, acadêmicas e políticas, todas marcadas por pragmatismos, imediatismos e aquela vontade louca de que tudo se realize no exato e presente momento. O “agora” é uma grande tentação e, ao mesmo tempo, um grande e fascinante mistério...
* * *
Saber andar, saber parar. Para perceber a profundidade da vida é bom lembrar que “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3.1). E são muitas as experiências da vida que nos revelam essa sabedoria.
Para mim, como já disse em outros espaços, um dos pontos especiais de parada são as minhas caminhadas diárias. Parece contraditório, mas não creio que seja. É que em cada passo eu paro no tempo, fujo das horas, vou revivendo o passado e antecipando o futuro. Ouço vozes, canto alto, faço preces.
As caminhadas diárias que faço são como sonhar. Vou andando, e aí imagino coisas, tenho desejos, faço planos. Caminhar é um hábito que forçosamente – confesso – eu adquiri. Como muitos sabem, minhas pontes de safena exigem isso. E eu transformo todos os passos em compassos que me ajudam a circunscrever meus dilemas e desejos. É que do nascimento à morte convivemos com um elemento impessoal, e é precisamente ele que se pode dizer genial. Para o renomado filósofo italiano Giorgio Agamben, em seu livro Profanações (Boitempo, 2007, p. 17):
Todo o impessoal em nós é genial; genial é, sobretudo, a força que move o sangue em nossas veias ou nos faz cair em sono profundo, a desconhecida potência que, em nosso corpo, regula e distribui tão suavemente a tibieza e dissolve ou contrai as fibras dos nossos músculos.
Ao dar os meus passos, vou refletindo, reavaliando atitudes, assumindo onde errei, pensando em possibilidades de paz, de comunhão e de fazer o bem.
* * *
A memória que brota dessas caminhadas e a de outros trajetos vividos, o olhar atento aos sinais dos tempos e o desejo profundo de paz e de justiça reúnem magicamente para mim passado, presente e futuro. São os sinais amorosos do amor divino, da fé e da esperança, espalhados no chão desta vida.
É muito comum que, ao final das caminhadas, eu socialize na internet fotos que produzo durante o trajeto. Em geral, convido as pessoas para que as olhem com calma e me digam o que elas revelam dentro do coração e da mente de cada um. Pergunto também se em algum momento haviam cruzado aqueles caminhos, se conheciam aqueles lugares e se dizem algo para além deles. Creio que, ao olhá-los, descobrimos que “a vereda do justo é como a luz da alvorada, que brilha cada vez mais até ser um dia perfeito” (Provérbios 4.18).
Essa experiência e visão me fazem lembrar o dia em que eu e minha esposa, Magali, fomos comemorar o aniversário de treze anos do Guilherme, nosso filho, assistindo ao filme, escolhido por ele, A menina que roubava livros (2014). Momento sublime de emoção, trajetos memoráveis, lição de vida e de esperança, ambientados nas sombras e nos escombros da guerra.
A trama, dirigida por Brian Percival, conta a história da jovem Liesel Meminger (Sophie Nélisse), uma garota que, depois de perder o irmão e a companhia da mãe que enfrenta problemas políticos com o regime nazista, passa a viver com pais adotivos na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Com a ajuda do pai, Hans Hubermann (Geoffrey Rush), muito acolhedor e afetivo, Liesel aprende a ler e partilhar livros com seus amigos. O cotidiano dela é marcado pelas leituras, estudos e tarefas domésticas que realiza para Rosa (Emily Watson), sua nova mãe, quase sempre muito dura com ela e mal-humorada, e ainda encontra algum tempo para brincadeiras com o amigo Rudy Steiner (Nico Liersch).
Apaixonada pela leitura, Liesel acaba desenvolvendo o hábito de “roubar” obras a fim de lê-las para Max Vanderburg (Ben Schnetzer), um judeu que mora clandestinamente em sua casa e por quem a jovem expressa amizade e solidariedade. Os desfechos de uma história assim podem ser imaginados...
Ao atentar para essa história, acompanhada de tantas outras de nossa vida real, que estão nas lembranças e no âmago das experiências afetivas, das emoções e dos mais diversos sentimentos, me remeto à outra belíssima indicação de Christian Dunker:
Nós não nos transformamos apenas quando somos senhores de nosso destino, soberanos da natureza e dominantes em relação aos outros. Mudanças cruciais podem acontecer quando nós permitimos que o outro nos ame, quando cedemos sobre o nosso narcisismo, quando aceitamos desejos e demandas que decorrem de nossa alteridade (2024, p. 112).
E, na busca insistente da profundidade da vida, também, paro para lembrar da bela canção “Trem bala”, de Ana Vilela:
Não é sobre ter
Todas as pessoas do mundo pra si.
É sobre saber que em algum lugar
Alguém zela por ti.
É sobre cantar e poder escutar
Mais do que a própria voz.
É sobre dançar na chuva de vida
Que cai sobre nós.
O enredo do referido filme faz uma boa abordagem da sociedade alemã do final dos anos de 1930 ao mostrar a insanidade do nazismo, com a nefasta doutrinação das crianças e da juventude. Com o contexto da guerra, ele mostra, com realismo histórico, os racionamentos de comida, os bombardeios e o desespero de Hitler com a derrocada. Retrata um regime que oprimiu não apenas judeus, ciganos, comunistas, pessoas homoafetivas, como é comum ser enfatizado em outras produções cinematográficas, mas revela, sobretudo, a opressão do seu próprio povo, especialmente os alemães mais pobres.
O filme, em todos os instantes, me fazia lembrar dos dramas vividos pelo pastor e teólogo Dietrich Bonhoeffer, martirizado pelas forças sombrias do nazismo, cujo testemunho tanto marcou meu pensamento teológico e pastoral. Em cada cena, a memória de Bonhoeffer ia e vinha em minha mente. Em Resistência e submissão (Paz e Terra, 1980, p. 196), ele nos diz:
Ainda o passado nos tortura,
De dias maus nos pesa a amargura;
Senhor, concede às almas espantadas
A salvação, para qual são preparadas.
* * *
A sensibilidade revelada no filme me alcançou em sonhos. Ele me lançou em uma busca, uma jornada... Temos visto que a vivência de uma espiritualidade profunda e arquitetada na vida é muito pouco realçada e valorizada. As visões relativas à fé têm sido, em geral, marcadas nas igrejas cristãs e em outros grupos religiosos por forte concepção individualista, especialmente pela relação que têm mantido com a cultura econômica. Isso se dá ao lado de um desprezo pelo cuidado com a natureza e uma desconsideração da criação como um todo, das relações sociais e comunitárias e do compromisso ecumênico com a vida, com a justiça e com os destinos da história e da terra. Sinto que para reverter esse cenário, é necessária a elucidação de uma perspectiva salvífica mais substancialmente bíblica, que realce a dimensão ampla e integral que a salvação possui. Lembrei-me das palavras poéticas
é mais que tempo...
a vida é muito intensa
nos lança em sombras e mares revoltos
nos ensina a caminhar sobre as ondas
assim como o amor
(Rose Fernandes, “Tempo?)”,
em Por entre os dedos, 2023, p. 22)
O movimento generoso e corajoso da menina do filme nos leva a uma visão, imprescindível para o futuro da humanidade, de uma espiritualidade que seja valorizadora da vida, sensível ao cuidado com a natureza e desejosa do empoderamento dos pobres. Trata-se de uma visão holística, aberta aos mistérios do universo e compromissada com desafios sociais e políticos que hoje se apresentam ao mundo.
Trata-se, conforme eu aprendi com a teóloga Ivone Gebara, de uma espiritualidade centrada na realidade que é corporificada no cotidiano, tanto nas dimensões de prazer como nas de dor, incluindo as mudanças e os processos do corpo, da vida pessoal, da autoafirmação e, ao mesmo tempo, conectada ao compromisso social, à generosidade e à atividade política.
Vislumbramos, portanto, uma experiência de fé que valorize a abundância da vida, seja sensível ao cuidado com as pessoas e com a natureza e perceba nela também o lugar de salvação da mesma forma que olhamos para o humano. Esse caminho nos conduz a uma espiritualidade ecumênica em seu sentido mais amplo, que defende os que sofrem e são perseguidos, e aprende com eles, e que se coloca aberta aos mistérios do universo e do mundo, relacionando-os com os desafios sociais e políticos que a vida nos apresenta. Há uma indicação de certa singularidade expresso em uma das frases marcantes do filme: “às vezes, quando a vida te rouba, você tem que roubá-la de volta”.
* * *
Dilemas profundos da alma. O filme nos revela as sombras, as ambiguidades e os percalços da existência humana. Imagens e desejos da morte. Melancolia e depressão permanentemente presentes, não obstante “choques de transitoriedade” e possibilidades de recomeços, de generosidade e de esperança. O interior de cada ser e a realidade circundante, perigosa e repressiva, ambos prenhes de passagens secretas reveladoras da fragilidade humana e da potência, estão interligados ora amável ora dolorosamente. São abundantes as metáforas que surgem das atitudes da graciosa Liesel, dos diálogos marcantes que travou, das atitudes inspiradoras pela vida.
Aí entra em cena o caminho da alteridade. Ele, que é a possibilidade humana de nos relacionarmos com as realidades, grupos e pessoas diferentes de nós, não é algo tão simples assim. Porém, como sabemos, trata-se de elemento fundamental da fé cristã. Não é mera opção. Ela passa pela dimensão decisiva e vocacional da fé. É permeada de visões bíblicas, mas também está presente, como valor, no campo da antropologia e da filosofia. Alter, da origem grega, é o diferente, portanto a capacidade de alteridade é reconhecer um “outro” que está além da subjetividade própria de cada pessoa, grupo ou instituição.
Para Christian Dunker,
O amor é o afeto que nos tira de nós mesmos. O sinal de que não nos bastamos, não somos autossuficientes e de que, em algum nível, somos os responsáveis por nos realizarmos, por meio da expansão do si mesmo em nosso interesse, fascinação, inclinação, gosto ou desejo pelo outro. É a partir desse outro que nos entendemos amados, uma das experiências mais fundantes e constitutivas de quem nós somos e para quem nós existimos (Record, 2024, p. 21).
Alteridade é uma postura, um método ou mesmo um sistema de ferramentas que permitem redimensionar, em perspectiva, a realidade. Assim, a plausibilidade de qualquer conjunto de ideias, sistema religioso ou cultural se evidenciaria no convívio com o “outro”, e não na confrontação apologética, tentando desqualificá-lo, diminuí-lo ou segregá-lo em preconceitos. E como tem sido o nosso mundo?
Dessa forma, a cortina da vida para possibilidades criativas de aproximação e de convívio se abre, resultando delas melhor compreensão do “outro”, que não mais será visto como exótico, inimigo, inferior ou qualquer outra forma de desqualificação. Assim, se releva a divindade amorosa que busca redimir a humanidade, como um balizador ético que impulsiona a todos e a todas fazerem o mesmo ato redentor. E daí, surgem diferentes desafios e possibilidades. Um dos mais fecundos é o da ‘escuta’; saber ouvir o diferente. Nessa perspectiva, todas as situações se alteram. A relação “pessoa e comunidade”, por exemplo, adquire uma nova consciência. Acentuam-se nesse caminho espiritual novas visões sobre democracia, relações interpessoais e coletivas, processos de aprendizagem e formas ecumênicas de ver a vida.
Assim, compreendemos que, pela graça de Deus, “uma força estranha no ar”, como diz a canção de Caetano Veloso, move e remove percepções a ponto de vermos o que não está exposto: que as pessoas têm valor independentemente de suas condições sociais e econômicas, que o amor de Deus é preferencialmente direcionado aos mais pobres, que a paz e a justiça andam juntas, que o amor e o respeito devem prevalecer nas relações humanas, que a salvação vem de Deus e é ampla, não se limitando a uma igreja ou religião específicas, que “um outro mundo é possível”, conforme nos indicaram os Fóruns Sociais Mundiais, e que Deus é maior do que todas as coisas. Esse tipo de espiritualidade não se aprende em conceitos teológicos, filosóficos ou políticos. Ele vem com “a mania de ter fé na vida”, dom de Deus para tantas Liesels, presente na conhecida e envolvente canção “Maria Maria”, de Fernando Brant e Milton Nascimento.
E assim, nos “cantinhos” e “quebradas” da vida, a gente vai vendo sinais de gratuidade. Partilhas aqui e ali, generosidades, especialmente entre as pessoas mais vulneráveis, gestos de carinho em meio à cultura de ódio e violência miliciana, sonhos de paz, justiça e amizade construídos em conjunto.
Claudio Ribeiro.
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